Terça-feira, 25 de agosto de 2026
☕ BOM DIA.
Lisboa ainda dormia quando o telefone tocou nos bombeiros. Eram pouco mais de cinco da manhã de 25 de agosto de 1988. Havia fogo nos Armazéns Grandella, na Rua do Carmo. Talvez ninguém pudesse imaginar, naquele primeiro alerta, que a cidade estava prestes a viver uma das manhãs mais dramáticas da sua história recente. O fogo avançou pelo coração do Chiado, atingiu as ruas Garrett, do Carmo e Nova do Almada, destruiu 18 edifícios, matou duas pessoas — um morador e um bombeiro —, feriu dezenas e deixou milhares perante a incerteza de terem perdido a casa, o emprego, o negócio ou uma parte da cidade que julgavam eterna.
É aí que começamos esta terça-feira. Primeiro regressaremos àquela madrugada e às imagens de uma Lisboa coberta por uma enorme coluna de fumo. Depois, na Crónica de Terça-Feira, deixaremos os números e os factos para falar de outra coisa: das cicatrizes das cidades — e das nossas. Porque quando desaparece uma loja onde entrávamos desde crianças, um café onde alguém nos esperava ou uma casa onde fomos felizes, não desaparecem apenas paredes. Desaparece também um pedaço da nossa geografia íntima. Em Sabia que...?, descobriremos uma curiosidade completamente diferente. E, em Hoje Há Vida Lá Fora, procuraremos novamente um pouco de verão. Hoje o café começa com fogo, mas não será uma edição triste. Será sobretudo uma edição sobre memória e reconstrução.
⏳ À VOLTA DO TEMPO
25 de agosto de 1988 — A madrugada em que Lisboa viu arder o Chiado
Às 5h14m40s, segundo o registo sonoro conservado nos arquivos da RTP, chegou ao Regimento de Sapadores Bombeiros um dos primeiros alertas: havia um incêndio na zona do Grandella. O registo manual da ocorrência seria feito poucos minutos depois. O fogo começara nos Armazéns Grandella, na Rua do Carmo. O Chiado daquele tempo era diferente daquele que conhecemos hoje. Era uma zona histórica de comércio e serviços, com edifícios antigos, alguns com abundância de madeira, lojas tradicionais e grandes armazéns que faziam parte da memória comercial de Lisboa. O acesso dos meios de socorro à Rua do Carmo também levantou dificuldades e seria posteriormente objeto de grande discussão.
As chamas encontraram condições terríveis para avançar. O fogo passou de edifício em edifício. Os Armazéns do Chiado arderam. Fachadas ruíram. Vidros explodiram. Estruturas metálicas deformaram-se. Mangueiras atravessaram as ruas. Bombeiros tentavam impedir que o incêndio continuasse a caminhar por uma das zonas mais sensíveis da cidade. Lisboa acordou e viu uma nuvem de fumo sobre o centro. A televisão chegou. Os jornalistas chegaram. As pessoas chegaram. E uma geração inteira guardou aquelas imagens.
A RTP recordaria mais tarde o incêndio como um dos primeiros grandes acontecimentos mediáticos portugueses acompanhados intensamente no próprio local. As câmaras mostravam labaredas a sair das janelas, bombeiros exaustos, fachadas destruídas e o fumo elevando-se sobre a cidade. O balanço foi brutal. Dezoito edifícios foram destruídos ou profundamente atingidos. Duas pessoas morreram, um bombeiro e um morador, e mais de cinquenta ficaram feridas. Cerca de 1.150 bombeiros participaram nas operações.
Mas os números não conseguem contar tudo. Arderam os Grandella. Arderam os Armazéns do Chiado. Desapareceram estabelecimentos conhecidos de gerações de lisboetas. Foi destruído o arquivo histórico da Valentim de Carvalho, com documentação ligada à história da música portuguesa. Ficaram também destruídos estabelecimentos como a Pastelaria Ferrari, a Perfumaria da Moda e outras lojas tradicionais. Cerca de duas mil pessoas enfrentaram a perda do local de trabalho.
E depois houve silêncio. O silêncio estranho que existe depois das grandes catástrofes, quando já não há a violência inicial, mas ainda não sabemos exatamente o que perdemos. O Chiado estava ferido. Era necessário decidir o que fazer com ele. Reconstruir tudo como antes? Aproveitar a destruição para construir uma zona completamente nova? Conservar fachadas? Modernizar interiores? Tentar recuperar uma memória ou aceitar que a cidade tinha mudado?
A reconstrução ficaria profundamente ligada ao arquiteto Álvaro Siza Vieira. O plano procurou recuperar o Chiado respeitando a sua relação com a traça histórica e pombalina, enquanto introduzia novas soluções no interior dos quarteirões. O processo seria longo e prolongar-se-ia durante anos.
Hoje atravessamos o Chiado e encontramos novamente lojas, cafés, turistas, escritores de bronze, músicos de rua e pessoas apressadas. Os Armazéns do Chiado voltaram. As fachadas estão lá. A Rua do Carmo enche-se diariamente de gente. Uma pessoa que tenha nascido muitos anos depois de 1988 pode atravessar tudo aquilo sem imaginar o que viu quem ali esteve naquela manhã.
Talvez seja essa uma das capacidades mais extraordinárias das cidades. Sobrevivem-nos. São destruídas e reconstruídas. Perdem edifícios e ganham outros. Mudam os habitantes, as lojas, os cheiros, os sons e até a maneira como caminhamos pelas ruas. Mas não apagam completamente aquilo que aconteceu. Quem souber onde olhar ainda encontra a cicatriz. E talvez seja por isso que, 38 anos depois, vale a pena recordar aquela madrugada. Não para voltar ao fogo. Mas para perceber aquilo que aconteceu depois dele.
Lisboa levantou-se.
✒️ CRÓNICA DE TERÇA-FEIRA
As cidades também têm cicatrizes
Uma cidade não é feita de prédios. Os prédios podem ser demolidos e reconstruídos. Uma cidade é feita da padaria onde comprávamos pão quando éramos crianças, da montra diante da qual parámos centenas de vezes, do café onde alguém nos esperou, da livraria onde comprámos um livro que já não sabemos onde está, da rua onde demos a mão a alguém que, entretanto, desapareceu da nossa vida. Talvez por isso, quando arde um quarteirão, não ardam apenas paredes. Ardem pequenos pedaços da biografia de milhares de pessoas.
Todos temos uma cidade que já não existe, mesmo que continuemos a viver nela. Voltamos à rua da infância e a mercearia desapareceu. Onde estava o cinema existe um banco. A casa dos avós tem outras janelas. O café mudou de nome. A árvore que nos parecia enorme afinal era pequena — ou talvez tenhamos sido nós que crescemos. Há lugares que permanecem exatamente onde estavam e, no entanto, desapareceram. Porque um lugar não é apenas uma coordenada. É aquilo que aconteceu lá.
Talvez por isso certas demolições nos incomodem mesmo quando o edifício não tinha qualquer valor arquitetónico. Alguém diz: “Aquilo era velho. Já estava a cair.” Pode ser verdade. Mas ali comprámos o primeiro disco. Ou bebemos café com o nosso pai. Ou esperámos nervosamente por alguém que apareceu vinte minutos atrasado e acabou por ficar vinte anos na nossa vida. Quem olha para o edifício vê paredes. Nós vemos tempo.
As cidades estão cheias destes fantasmas. Um restaurante onde já não existe restaurante. Uma escola transformada em condomínio. Um campo onde construíram prédios. Um banco de jardim que foi substituído. Uma árvore cortada. Uma cabine telefónica desaparecida. E continuamos a dar indicações utilizando lugares que já não existem: “É depois do antigo cinema.” “Viras onde era a farmácia.” “Fica em frente àquele café que fechou.” É extraordinário. Construímos mapas com mortos.
Talvez façamos exatamente o mesmo dentro de nós. Também temos ruas interiores. Casas fechadas. Lugares onde já não entramos. Pessoas que desapareceram, mas continuam a servir-nos de referência. “Foi antes de ele morrer.” “Foi quando ainda vivíamos naquela casa.” “Foi no verão em que nos conhecemos.” A nossa memória também organiza o tempo através de edifícios que já não existem.
Na manhã de 25 de agosto de 1988, milhares de lisboetas olharam para o Chiado e viram desaparecer diante deles uma parte dessa geografia íntima. Não era apenas arquitetura. Era o seu Chiado.
Depois veio a reconstrução. E talvez reconstruir seja uma das palavras mais bonitas que inventámos. Porque reconstruir não significa fingir que nada aconteceu. Significa precisamente o contrário. Aconteceu. Perdemos. Ficou uma ferida. E agora vamos tentar continuar.
Também fazemos isso com a vida. Há incêndios que não aparecem na televisão. Um amor acaba. Um amigo parte. Alguém morre. Perdemos um emprego. Recebemos uma notícia que divide a vida em antes e depois. Durante algum tempo vemos apenas os escombros. Depois, devagar, começamos a reconstruir. Nunca exatamente como era. Isso é impossível. Mas talvez também não seja necessário.
O Chiado que existe hoje não é o Chiado da manhã de 24 de agosto de 1988. E nós também já não somos as pessoas que éramos antes dos nossos incêndios. Talvez amadurecer seja aprender isto: uma cicatriz não significa que a ferida continua aberta. Significa que fechou sem desaparecer.
O Chiado levantou-se. Reconstruiu-se. Voltaram as pessoas, as lojas, os cafés e os passos apressados. Quem hoje o atravessa talvez nem imagine aquilo que aconteceu naquela madrugada de agosto. É assim que as cidades sobrevivem. E talvez nós façamos exatamente o mesmo. Continuamos. Reconstruímos. Voltamos a abrir as portas. Mas há lugares dentro de nós onde, se olharmos com atenção, ainda se percebe onde foi o incêndio.
☕ CAFÉ CURTO
A loja que já não existe
Há lojas onde não entramos há vinte anos e das quais ainda sabemos a disposição. O balcão estava à direita. A caixa ao fundo. Havia uma senhora que embrulhava tudo em papel. Talvez já não exista a loja. Talvez nem exista o prédio. Mas, se fecharmos os olhos, conseguimos entrar.
A memória é um comerciante estranho. Fecha as portas. Mas às vezes deixa-nos ficar com a chave.
💡 SABIA QUE...?
Porque é que o cheiro da chuva tem nome?
Há um cheiro muito particular quando começa a chover depois de vários dias de tempo seco. Reconhecemo-lo imediatamente, embora provavelmente poucos saibamos que tem nome: petrichor, termo criado na década de 1960 por investigadores australianos para descrever o aroma associado à chuva sobre solo seco. Uma das substâncias que contribuem para esse cheiro é a geosmina, produzida por microrganismos presentes no solo. Quando as gotas de chuva atingem determinadas superfícies, pequenas partículas e compostos aromáticos podem ser libertados para o ar.
Talvez por isso o cheiro da primeira chuva seja tão difícil de descrever e tão fácil de reconhecer. O nariz sabe antes do dicionário. E há cheiros assim: terra molhada, café acabado de fazer, um livro antigo, roupa lavada, a casa dos avós. Às vezes basta um segundo para viajarmos trinta anos. Sem bilhete.
🌿 UMA PEQUENA PAUSA
O que salvaria?
Imagine que tem cinco minutos para sair de casa. As pessoas e os animais já estão seguras. Pode levar apenas um objeto. Qual? Uma fotografia? Uma carta? Um relógio? Um livro? Uma peça que pertenceu aos seus pais?
É uma pergunta estranha porque nos obriga a distinguir duas coisas que frequentemente confundimos: o preço e o valor. Talvez o objeto mais caro que possuímos nem sequer esteja entre os primeiros em que pensaríamos.
🎭 HOJE HÁ VIDA LÁ FORA
Sintra — Uma noite de verão que não precisa de programa
Hoje faço uma proposta diferente. Não lhe vou recomendar um grande festival, uma feira ou um concerto com hora marcada. Vou recomendar Sintra ao fim da tarde. Chegue quando o calor começar a desaparecer. Caminhe pelo centro histórico sem demasiada pressa, deixe as excursões começarem a partir e procure a Sintra que reaparece quando o movimento diminui.
Tome um café. Ou uma queijada. Caminhe. Olhe para a serra. Se ainda houver luz e lhe apetecer prolongar o passeio, deixe que a estrada faça o resto. Há dias em que Hoje Há Vida Lá Fora não precisa de bilhete. Precisa apenas de uma decisão: sair de casa.
E talvez Sintra combine particularmente bem com o Café de hoje. É uma vila construída por camadas de tempo. Palácios, casas, jardins, ruínas, memórias. Quase nada ali pertence inteiramente ao presente. Talvez seja precisamente por isso que continuamos a voltar.
🌅 O DESAFIO DE HOJE
Hoje proponho que procure uma fotografia antiga de uma rua, uma casa ou uma loja que já não existe como existia naquela altura. Olhe para ela durante um minuto. Não procure primeiro as pessoas. Olhe para o fundo: os carros, as montras, os candeeiros, as árvores, as placas. Depois pergunte: o que desapareceu desta fotografia sem que eu tivesse reparado no momento em que desapareceu?
Às vezes percebemos que a vida muda precisamente assim. Sem cerimónia de despedida.
💬 À MESA COM OS LEITORES
Hoje quero transformar esta mesa num pequeno mapa de Portugal. Que lugar da sua infância já não existe — ou mudou tanto que praticamente deixou de existir? Pode ser uma loja, um cinema, uma escola, um café, uma fábrica, uma praia, um campo de futebol, uma estação ou simplesmente uma rua. Diga-nos o nome e a terra. E conte-nos uma pequena memória.
Talvez descubramos que existe um país inteiro que já desapareceu dos mapas, mas continua vivo dentro de quem o conheceu.
☕ ATÉ AMANHÃ
Hoje começámos às cinco da manhã numa Lisboa ainda escura. Um telefone tocou. Havia fogo na Rua do Carmo. Poucas horas depois, uma parte do Chiado estava destruída e milhares de pessoas olhavam para o coração ferido da cidade. Mas não quisemos ficar nas chamas. Falámos daquilo que aconteceu depois.
Reconstruir.
Talvez seja essa a palavra desta manhã. Reconstruímos cidades. Reconstruímos casas. Reconstruímos relações. Reconstruímos vidas. Nem sempre conseguimos repor aquilo que existia antes. Talvez nem devamos tentar. Siza Vieira não apagou simplesmente o incêndio do Chiado. A reconstrução procurou permitir que a cidade continuasse a reconhecer-se depois dele. Talvez seja também isso que fazemos quando alguma coisa importante se parte dentro de nós. Não voltamos atrás. Tentamos continuar a reconhecer-nos.
Depois falámos de lojas desaparecidas, do cheiro da chuva, do objeto que salvaríamos e de ruas antigas escondidas dentro de fotografias. Terminámos em Sintra, porque depois de uma manhã passada a falar de memória talvez faça bem caminhar por um lugar onde o tempo parece ter decidido andar um pouco mais devagar.
Amanhã voltamos. A mesa fica reservada. E o café também. Até amanhã.
✒️ FRASE DO DIA
“Há lugares que desaparecem da cidade e continuam, durante toda a vida, dentro de quem os habitou.”
Café com Letras






